9 de fevereiro de 2018 Creartcode

Tudo passará, só não o amor!

O tempo que avança sem piedade, e por vezes com alegria para todos nós, me deixa a alegria dos tempos antigos.  Me lembro de ainda jovem, muito jovem, antes de ser a bisavó que sou, tinha com toda felicidade as minhas filhas, mas não tinha o que a vida sempre nos planeja em abundância: Amor. Não tinha amor, tinha uma família ótima, mas somente Deus sabia o que ia dentro do coração.

Hoje vejo minhas filhas, netas, amigas das netas e outras, dizendo com força interna para todos que, “Não aguenta mais!”, e se vão! Muitas se consomem em nome da família perfeita, em nome da família que as cercam, em nome dos amigos que foram construídos, anos, décadas, tempos e tempos de sofreguidão interna, dentro de um silêncio absurdo, mas que tem estampado na cara um sorriso tão bonito que de tão alvo parece a folha que rabisco. Hoje, quando olho, ouço e, ainda tenho forças para escrever, observo de verdade que nós mulheres mudamos, em uns aspectos para pior, mas outros tantos para o infinitamente melhor.  Muito foi feito, muito sofremos, muito foi conquistado por todas nós. Não foram as amigas do passado, algumas falecidas, outras viúvas e tantas solitárias. Estas, muitas vezes, cercadas de pessoas, mas solitárias, ao ponto de quando nós conseguimos conversar, nas tardes de café com conhaque, vejo de verdade a alegria em ficar em paz, por algumas horas, mas ficar em paz para conversar, ser ouvida, ser entendida…

Mas eu, lá atrás, tinha minha família, minhas filhas, mas a cota de amor para a minha vida não existia.

Lutei, fugi, abandonei, me arrependi, chorei, me alegrei, me reconstrui, renasci, mais ou menos a 50 anos atrás… fiz um pouco de tudo, verdadeiramente, em nome do amor.

Mas valeu tanto amar que confesso agora à vocês, minhas meninas: amem com equilíbrio, mas que seja intenso, que a alegria tome conta das suas vidas, seja por alguém, por um trabalho que tenha um sentido, por sua vida, pela sua liberdade, por um legado, pela caridade, pelo outro, pela Fé… que a dor baterá a porta, sim, mas que o amor ocupe um espaço central e que seja sempre maior que qualquer sofrimento. Que tudo se transforme em aprendizado, que tenhamos a certeza de que tudo passará, que sejamos confiantes no que temos de força e vida dentro de nós.

Hoje vejo com imensa alegria, as mais novas, minhas bisnetas, em um mundo novo, em uma seara que ainda terão que lutar tanto, mas que me alivia em saber que lutarão menos que minhas netas, menos ainda que minhas filhas e menos ainda que eu.  Hoje quando olho tudo que foi construído por um ato ou loucura, em nome do amor que me faltava, vejo que sim, valeu a pena.

Certamente hoje, eu faria de modo a não machucar tantas pessoas quanto as machuquei, mas faria novamente! O tempo traz a cura e Deus sempre nos diz que tudo passará!

Nos tornamos mais forte, mesmo ficando mais velhas, com as alegrias incomensuráveis da vida. No meu caso, a família! Meus filhos, netos, bisnetos…

Toda vez que uma ficava grávida, eu ficava mais forte, mesmo ficando mais velha… e assim foi, até hoje.

Ver minha bisneta engravidar e ter uma filha e manter a “força feminina” em voga, já sequer anseio, pois nem sei qual é o seu ponto de satisfação e, sinceramente, não me interessa!  Ao vê-la sorrindo e pensando no seu trabalho, estudo, política, viagens e onde ela, como mulher, deva estar, é o que me basta. À Deus, nada mais peço! Já o fiz demais nestes anos todos. Há tempos somente agradeço a cada manhã de lucidez. E quando me for, estarei com cada um deles, pois plantei amor dentro de cada um. Eis o que fica para os que ficam, e comigo, quando me for, vou com sorriso na alma por saber que, apesar dos pesares, todos estão bem e, se por algum instante alguém ficar péssimo, também sei que isso também passará!

 

 

Severina Melo

Nascida em 1932, em Pernambuco, a bisavó de 85 anos não é escritora, política ou poetisa. Ela é somente Severina!


Você pode gostar também